terça-feira, 25 de setembro de 2007

Em Sao Paulo


O encontro da sertaneja com os imigrantes sertanejos


A minha sensibilidade inata sempre levou meu espírito a impressionar-se facilmente com as coisas do mundo. O que dizer do meu estado emocional, quando o fato realmente é impressionante? Logo, uma das experiências mais estonteantes que vivenciei, deu-se na cidade de São Paulo, quando lá estive pela primeira vez. É relevante frisar que eu não conhecia lugares distantes quando fui a São Paulo. Passei a infância e a adolescência me revezando entre a zona rural e a pequena zona urbana da cidade de Coremas, no sertão paraibano. As únicas capitais que eu conhecia eram João Pessoa e São Luiz, sendo que, passei uma semana nesta e residia há três anos naquela. Não obstante, sem hesitar um momento sequer, abraçoei a aventura de pegar um ônibus e ir sozinha para Presidente Prudente apresentar um trabalho em um congresso de professores e alunos de geografia. Na ida, passei pela metrópole paulista e fiquei deslumbrada com o Terminal Rodoviário do Tietê, com o metrô e com o Terminal Rodoviário de Barra Funda, os únicos lugares por onde transitei. Evidentemente, assustei-me com a multidão em todos esses locais e me lamentei por não ter uma visão capaz de abarcar trezentos e sessenta graus de vista. Somente na volta eu pude passar três dias na “paulicéia desvairada”. Mas, deixando de circunlóquios, a história começa quando eu retorno de Presidente Prudente para passar três dias na metrópole paulistana:
Quando eu estava passeando no Bairro do Morumbi, vi uma favela que arrebatou lágrimas dos meus olhos. Era um amontoado de barracas improvisadas com papelão e madeira, principalmente. Tudo numa desorganização e numa pobreza alarmantes. Acima dessas habitações sombrias, reluziam prédios modernos, muitos dos quais, sedes de multinacionais. Nessas proximidades, passava uma das avenidas mais modernas de São Paulo, onde estão localizados o Shopping Morumbi e a Central Globo de Jornalismo, ambos perto da mencionada favela. A paisagem existente ali era a materialização mais acabada do contraste, da distância avizinhada na qual os homens modernos costumeira e cotidianamente “conviviam”.
Eu me lembrei dos noticiários dos jornais e temi ao passar na frente da favela. Tive medo de assalto ou qualquer tipo de violência, recordando-me sempre das notícias vinculadas na mídia televisiva.
No dia seguinte, passei pelo mesmo local com a namorada do meu irmão. Segredei a ela as minhas impressões e o meu receio de passar por perto da referida favela. Minha cunhada, com um meio sorriso, esclareceu:
- Medo, de passar por aqui? Mulher, aí dentro só tem gente de Coremas. É gente da Paraíba, Pernambuco, Ceará...
Só assim eu lançei mão da realidade que já conhecia e nao estava enxergando porque o borbulhar de sentimentos havia tapado os meus olhos. Em seguida, minha cunhada sugeriu:
- Você não quer passar por dentro, para você ver como é e para constatar que ninguém vai fazer mal a nós? Muitos me conhecem e eu garanto que ninguém nos fará nada.
Após ponderar um pouco, eu aceitei a proposta e fiquei surpresa ao me ver entrando em um local que, minutos antes, receava passar a uma distância de sessenta metros.
Finalmente, ao passar no meio da favela, uma comoção incomensurável tomou conta de mim. Eu me deparei com pessoas que tinha visto pela última vez quando era criança e que até já ignorava a existência. Dentro das casas eu vi rosários, quadros do coração de Jesus, Padre Cícero e Frei Damião, uns pregados nas paredes, outros enfeitando a carcomida mobília. Era perceptível que eu estava dentro de um bolsão nordestino encravado na riqueza de São Paulo. Eu vi pessoas de cabeças chatas como a minha, vi pessoas que viviam numa habitação melhor quando moravam em minha cidade natal. Ao meu lado, minha cunhada distribuía bons dias para várias pessoas.
Enfim, ao sair dessa favela, percebi que estava com medo dos seus irmãos sertanejos, vítimas de emigração.