terça-feira, 24 de novembro de 2009

O Ônibus dos Polìticos


Esta é uma sofrida, mas inesquecível saga de estudantes paraibanos que saem de sua pequena cidade do interior para formar-se na capital. Concomitantemente, grande parte dos incidentes ocorridos nesta dramática história foi conseqüência do período eleitoral.

Eu e minha companheira de guerra “Marcela” estávamos em recesso universitário e, não contrariando a rotina, estávamos com os bolsos vazios. Assim, não tínhamos dinheiro para comprar as sonhadas passagens com destino à Coremas. Todavia, uma luz, uma bem-vinda luz, acendeu-se radiante no fim do túnel: Surgiu uma carona no ônibus “dos políticos”! Depois de articular a odisséia, rumamos ao Aeroclube, no Bairro Manaíra às dez da noite, hora em que estaria nos esperando o bendito ônibus dos políticos. Um bigú imperdível para duas estudantes destinadas!

Assim, chegamos ao local combinado, ansiosamente arrastadas pela vontade de chegar em casa. Aos poucos, os sertanejos, entre os quais, cinco estudantes despossuídos e um monte de sertanejos que veio à capital em busca de serviços não oferecidos nos hospitais do Sertão, foram lotando o Aeroclube. Por volta das onze horas da noite, só faltava chegar o ônibus. Assim, deu meia noite, uma da madrugada, duas, três e nem sinal do ônibus que deveria chegar as dez. No decorrer da maçante espera choveu e as ensopadas vítimas tentaram se proteger do aguaceiro debaixo da asa de um avião.

Nesse moído, por volta das cinco horas da manhã, uma lata velha e carcomida pela ferrugem, desaforadamente considerada um veículo automotor, conseguiu estacionar, numa aparência fantasmagórica, a cinco palmos do pau da venta dos sertanejos, os quais arregalaram os olhos, tamanha era a admiração provocada pela velhiçe do ônibus. Imediatamente, a comitiva sertaneja foi se acomodando nas enferrujadas e duras poltronas e, quando o danado do bicho acelerou, em sua zoada estrondosa, ouve toda sorte de oração, reza e promessas para que todos chegassem vivos aos seus destinos.

Foi pelas bandas de Campina Grande que os passageiros viveram os mais tenebrosos momentos de sua peregrinação. O “ônibus”, como se sofresse de uma bronquite crônica, começou a balançar-se e teve a proeza de piorar ainda mais a anormalidade do barulho. Não se sabia o que mais abatia Marcela e eu, se era a iminência de algum contratempo ou o estado deploravelmente faminto no qual jazíamos. Vale salientar que no meio desta aventura, tínhamos comido pela última vez (pão com café e leite) às sete horas da noite anterior. Contorcíamo-nos aos delírios pensando na galinha de capoeira, na buchada de bode, no rubacão, no tucunaré, na carne de criação e no arroz de leite que íamos comer se chegássemos em casa na condição de viventes.

Em meio ao ruído do ônibus e aos alaridos dos passageiros, alcançamos a afogueada cidade de Patos, por volta do meio dia. Os sertanejos foram bovinamente despejados no Comitê, desesperados de calor e fome. Os familiares do candidato pediram para esperarmos um pouco e avisaram que outro ônibus seria providenciado para deixar os amados eleitores em suas casas como mereciam. Contudo, as últimas frases do discurso conduziram a mim e a Marcela ao êxtase:

- Mas, primeiro, vocês vão almoçar numa churrascaria aqui, por nossa conta, não podemos permitir que nossos eleitores continuem a viagem morrendo de fome.

Depois de uma meia hora idêntica a uma eternidade, chegaram os táxis para conduzir todos até a paradisíaca churrascaria.

Possuídas pelo desespero da fome canina, pelo espírito desregrado e pela capacidade de rir das tragédias que Marcela e eu tínhamos por herança e por adaptação ao meio, submetemos o bom senso ao instinto animal. Ao entrar no táxi, vimos uns baldes ao nosso lado. E, debalde, tentamos nos controlar, pois, o fato è que abrimos discretamente e entre rinchadeiras estes baldes. E ficamos maravilhadas com a quantidade de goiabada contida dentro desses lindos recipientes e que iria paliar passageiramente o mal da fome. Assim, cravamos as imundas e suadas mãos dentro do doce e devoramos uma boa porção. O taxista, nesse momento, representava o universo que conspirou cruelmente contra nós e ao qual devíamos essa vingança.

Na churrascaria, mais uma pequena espera. Aproximadamente à uma hora da tarde, começamos a nos servir. O tempo escaldante e a fome há muito havia cegado os nossos olhos que, diga-se de passagem, já tinham saído de casa embaçados. Esculpimos um prato de rubacão com creme de leite, jabá, corredor de boi e costelas com gordura e tutano, resultando numa montanha que concorria com o Pico do Jabre.

Tentem imaginar: Arroz, feijão e carne, tudo bem gorduroso, ensebado e quente, numa cidade como Patos, uma hora da tarde e depois de ter passado uma noite em claro. O que posso dizer è o que lembro: Marcela e eu saímos dessa churrascaria só com o coração batendo.

Pouco tempo depois, chegou outro ônibus para seguir viagem. Tinha gente de Coremas, São João do Rio do Peixe e até do Ceará para este ônibus dar baixa. De barriga estourando, todos entraram no veículo quentíssimo e seguiram caminho. Foi a partir desse momento que, de fato, Marcela e eu despencamos numa correição de tragédias jamais vivenciadas. Antes de serem consumidas pelo suor frio e pelas respostas diarréicas dos nossos intestinos, caímos num sono profundo. O pai de Marcela nos pegaria em São Bentinho às três da tarde, conforme estava acertado. É isso mesmo, nos pegaria!

Horas depois, desgraçadamente avisadas pela iminente disenteria, reouvemos a condição de sobreviventes. A bem da verdade, Marcela e eu despertamos com todo o corpo atormentado, com o auto-domínio fisiológico chegando ao fim, ou melhor, (nunca fui amante dos eufemismos, meu negócio é com as hipérboles e pra que falar bonito?) despertamos, sim, segurando a mais desgraçada das caganeiras. Este infortúnio, embora visceralmente doloroso, não nos impediu de enxergar os demais infaustos, ou seja, o infeliz fato de que estava anoitecendo e que nos encontrávamos numa cidade irreconhecível e muito além das estradas que conduziam a Coremas. Com esperanças de tudo isso ser um delírio acarretado pela guerra gastro-intestinal, indagamos o motorista a respeito da hora e do local onde estávamos. Ele respondeu que eram quase seis da noite e que nos encontrávamos em São João do Rio do Peixe.

Os momentos imediatamente posteriores a essa revelação são inenarráveis e indescritíveis. Marcela e eu estávamos semi-cagadas, de pernas fechadas e testas suadas para não completar o serviço no meio da rua, certas de que tìnhamos que obrigar o motorista voltar e cientes de que Coremas estava borbulhando em fofocas e preocupações. Em estado de suplício, Marcela conseguiu revelar ao motorista que éramos de Coremas. Este, surpreso, depois sem conseguir compreender como foi que viemos parar em São João do Rio do Peixe e, por último, possesso, deu-nos um carão estrondoso. De cara lisa, apenas balbuciamos:

- Mas o Senhor vai nos deixar em Coremas, não vai?

O motorista nos fincou um olhar de ódio e descrença. Ele estava exausto e não cansava de bradar:

- Faz três dias que eu ando por estas rodagens e não vejo a hora de descansar, vocês tão querendo me matar! Ele tinha gente para deixar no Ceará e anunciou que só ia dar conta de nós duas quando retornasse. Logo, tínhamos que esperar o motorista em São João do Rio do Peixe.

Antes mesmo que o motorista entrasse no ônibus, Marcela e eu fomos a casa de nossa amiga Milvaneide para usar o banheiro. Terminada essa angústia, estávamos purificadas, pois a paga dos pecados foi feita em plenitude. Assim, fomos tratar das outras misérias.

Marcela, ao lembrar a viagem perdida que o pai dela realizou até São Bentinho e da preocupação que todos deviam está sentindo, puxou coragem das entranhas da alma e ligou para casa. Os clamores do motorista eram suaves cantigas de ninar diante das esculhambações, ameaças e lamúrias de desgosto que o pai, a mãe e o irmão de Marcela despejaram sem dar trégua. Irresponsável foi o adjetivo mais elegante que Marcela logrou e a mim restou a imagem satânica da má influência. Marcela desatou a chorar copiosamente, a explicar-se e defender-se aos soluços, num esforço admirável, embora inútil.

Algum tempo depois, veio o próximo baque: o motorista estava demorando e nos vimos diante de uma tragédia que ameaçava nossas vidas, qual seja, ficar em São João do Rio do Peixe sem dinheiro e sem raciocínio apurado o suficiente para pensar numa forma de chegar em Coremas.

Depois de termos a certeza de que não sofríamos de problemas cardíacos, o ônibus surgiu no horizonte com o solitário, afadigado e encolerizado motorista. Sem enxergar nada a não ser o caminho de casa, entramos no veículo e aguardamos caladas as broncas, exclamações, lições de moral, insultos e tudo o que fosse desse gênero.

Chegando à cidade de Cajazeiras, o motorista se voltou para Marcela e eu como quem se volta para dois asnos imprestáveis e trabalhosos e agregou:

- Esperem aí que eu vou tomar um banho e ver se crio coragem para deixar vocês, só vou se me aparece ânimo! Não resistindo ou não querendo perder a prática, ele acrescentou:

- Se não fosse a irresponsabilidade e a ruindade de vocês, eu ia dormir agora, ô inferno da taba lascada!

Ficamos lá com as fuças no chão e o rabo entre as pernas, esperando. Alguns minutos depois, duas senhoras, a par dos pormenores da tragédia na qual Marcela e eu triunfávamos sobre o derrotado motorista, vieram até nós duas e despejaram pragas em coro. No entanto, Marcela e eu estávamos tão cabisbaixas, tão caladas, sujas, exaustas e imersas num estado de indiferença que, repentinamente, houve uma profunda mudança no semblante das duas fofoqueiras. Subitamente, aquela revolta se transformou em dó. As senhoras escancararam um sorriso e convidaram Marcela e eu para comermos na festa de aniversário que estava acontecendo. Quando entramos na festa, ficamos atônitas em meio ao bolo, aos brigadeiros, salgados e refrigerantes. Devido ao panorama alimentar exibido debaixo de nossas pestanhas, o desarranjo intestinal de outrora se converteu em uma cinzenta lembrança em nossas amnésicas memórias. Assim, munidas de garfo, faca e colher, recomeçamos a peleja. Comemos até a exaustão e Marcela tanto devorava os brigadeiros quanto os enfiava nos bolsos da roupa.

Rindo da oscilação entre a desgraça e a glória em que se limitavam suas vidas, Marcela e eu entramos no ônibus preparadas para enfrentar o caminho e suportar os gritos, bramidos, berros, etc., etc., etc...

Ao arribar em busca de Coremas, o motorista ligou o som ouvimos Luiz Gonzaga, para matar as saudades de antanho. A viagem corria em paz quando, de repente, sentimos uma batida e uma freada bruscas. O ônibus se chocou com um jumento que estava no meio da estrada. E por culpa de algo ou de alguém, até um inocente bicho bruto faleceu em triste acidente.

Em um raio de segundos, o motorista pôs-se a urrar:

- A culpa desse acidente é de vocês, matei o companheiro de vocês, suas pestes! Marcela, não sei com que ousadia, teve a coragem de abrir a boca nesse momento e suplicar:

- O Senhor tem razão, a culpa é nossa, mas pelo amor de Deus, estamos com medo e podemos nos acidentar, vamos mais devagar. Mais uma vez, ouvimos toda aquela enxurrada de broncas...

Enfim, por volta das duas da madrugada, avistamos as primeiras casinhas do Cabo Branco, em Coremas. E foi exatamente no avistar destas casas que nossa saudosa emoção se foi ao perceber que o motorista estava nos deixando ali mesmo. Portanto, ainda andamos, cada uma com sua mochila nas costas, uns dois quilômetros e meio até chegar ao centro da cidade. Realizado este itinerário, nos separamos e fomos nos explicar as nossas respectivas famílias.

sábado, 31 de outubro de 2009

Aqui num é Currema não!


Vergonha todo mundo passa. Mas, há certos acontecidos que não são destinados a qualquer vivente. Neste momento estou recordando uma agonia que estoicamente suportei no seio da mestrópole paulistana. Este infortúnio sucedeu quando eu, uma estudante provinda das brenhas do sertão paraibano, rumei para a cidade de São Paulo com a missão de apresentar um trabalho acadêmico em um evento. Desconhecedora que era da mencionada metrópole, necessitei de um guia nos primeiros dias. Entre todos os parentes nordestinos que radicavam em São Paulo, foi nomeado para tal cargo o meu primo Zé Branco. Apresento-o:

Zé Branco é um homem que, como o próprio apelido denuncia, é branco, porém, que fica bastante vermelho quando se expõe ao sol.
Zé Branco nasceu na zona rural do Município de Coremas, entretanto, foi morar em São Paulo na aurora da adolescência. Evidentemente, integrou-se às levas de nordestinos que deixaram os sertões tórridos nos anos setenta. Desde estes difíceis tempos, Zé Branco voltou a Coremas somente para ligeiras visitas.
Zé Branco não sabe ler, nem escrever, mas uma coisa ele sabe fazer com maestria, deslocar-se em São Paulo, quer seja de ônibus, trem ou metrô. Ele viu São Paulo crescer e inchar.
Por penúltimo, é necessário acrescentar que Zé Branco tem um problema nas cordas vocais que o impede de pronunciar alguns fonemas. E, apesar de viver em São Paulo há muito tempo, nunca foi do seu feitio falar chiando.
Por último, registro que Zé Branco é oriundo de uma casta de teimosos, de um tipo de gente difícil de tirar uma teima do quengo. E, em sua visao de mundo, eu ainda era a menininha buchuda que ele deixou lá no sertao há mais de vinte e tantos anos.

Esclarecida a lengalenga da contextualização do fato, passo á narrativa do fato:

Na manhã da segunda-feira Zé Branco me acordou duas horas antes do tempo combinado. Assim, saímos desbravando o frio da madrugada paulistana, Zé Branco na frente e eu atrás, dando início ao furdunço. Mal fechamos a porta que dava para a rua, Zé Branco gritou, de modo a explodir os tímpanos do público transeunte:
- Avia ligeiro que aqui num é Currema não!!!
E assim foi nossa travessia rumo à estaçao do trem, com Zé Branco repetindo seu "Avia ligeiro que aqui num é Currema nao" e me segurando pela munheca com a certeza plena de que eu não sabia me mover numa cidade do tamanho de Sao Paulo.

Chegando à estação, a espera pelo trem se deu com a palestra que Zé Branco ministrou, concluindo com um rosário de recomendações, enquanto todo mundo nos olhava. O fato é que Zé Branco só faltou subir nas cadeiras, tamanha era a gana de ser compreendido por mim.

Quando o trem chegou, Zé Branco, ignorando a fila de passageiros, adentrou-o mais ligeiro que coiçe de bacorinho e sem esquecer minha pessoa, a qual ele sapecou dentro de dito trem como quem rebola um saco de batata dentro de uma caminhoneta.
Quando o trem recomeçou seu itinerário, Zé Branco gritou sem dó:
- Se sigura pra num cair, tu num ta em Currema não! Rita da cabeçinha chata, esse trem é pior que correnteza de ri em inverno brabo.

Não sei se preciso mencionar que todos os passageiros se voltaram para mim, uns tiveram pena de minha infortunada pessoa e somente dedicaram um discreto rabo de olho, mas a maioria queria saber quem era a pareia, de modo que torcia a cabeça aos desesperos para nos avistar.
Eu fiquei imóvel, sem olhar para os lados e a única coisa que me ocorreu foi dar um beliscão de cinco voltas nos braços do meu primo Zé Branco para ele se calar. Depois disso, traumatizada pela derrota dos meus beliscões, limitei-me a escutar, junto com os passageiros presentes, o seguimento da conferencia exaltada, cheia de metáforas e comparações, a qual conduzia todos ao sertão nordestino.

Quando finalmente chegamos ao nosso destino e meu coraçao começou a ser restaurado pelo alívio, ouviu-se o brado de Zé Branco:
Chegueeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeemo!
Assim, eu, ainda viva, apesar de intensamente abatida pelo revés da vergonha, saí do trem e Zé Branco no meu encalço, correndo para agarrar meu braço.

Quando entramos na USP, eu encontrei fôlego e falei:
- Pronto, Zé Branco, estou entregue, agora você pode ir. Senhor da situação, Zé Branco se virou para mim e replicou:
- Tu tá doida deu largar você aqui? Essa universidade dá dez de Currema, tu ta doida? Aqui num é Currema não, bichinha.

Feita a vontade de Zé Branco, pegamos o circular dentro da USP com destino ao Departamento de Geografia. Havia no caminho placas indicativas de todos os locais da universidade, por conseguinte, qualquer pessoa alfabetizada se orientaria facilmente.
Todavia, Zé Branco chegou até minha pessoa e vociferou:
- Pergunte ao motorista onde é o lugar que você vai ficar, como é mermo o nome do lugar onde tu vai ficar?
Eu caí na asneira de contrariá-lo e fui explicar sobre as placas e não pude. Ele me interrompeu de modo a abalar o ônibus:
- Pergunta ao motorista onde é que você vai ficar, tu num ta em Currema não!Tu tá pensando que tá andando pela rodagem lá do Sítio Pau-Ferrado e que só pode encontrar pela frente topada em lageiro de pedra e cobra de cipó?
Todos os estudantes que estavam no ônibus nos olharam. Esgotada emocionalmente e sem cara para mais nada, eu fui pedir informações ao motorista. Preocupado, Zé Branco ainda bradou:
- Preste atenção pra gente num passar direto. Ah, minha filha, se a gente tivesse em Currema era bom demais. Tu tá é num ôindo em Sum Paulo. Era bom demais se tu tivesse muntada num jumento correndo pelos tabuleiro lá no Sítio Riacho da Catinga. Aqui é pior do que levar carreira de vaca dada cria de bezerro novo.
Mas toda agonia tem fim e depois de toda esta saga, chegamos ao local pertinente. Eu desci do ônibus e, quando fui me despedir de Zé Branco, percebi que não era necessário. Ele desceu atrás de mim e disse que não ia me deixar sozinha nem a golpe de cassete. Logo, Zé Branco ficou comigo por umas duas horas. Vale frisar que, como saímos de casa cedo, fomos os primeiros a chegar.

Após muita argumentação e já com o ambiente cheio de gente, eu consegui convencer Zé Branco a ir embora. Porém, sua natureza não lhe permitiu uma saída silenciosa... Assim, antes de correr para casa, ele gritou, mas dessa vez com a real intenção de gritar:
- Tome cuidado prima veia, aqui num é Currema não!

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Hespedito fala mais errado do que eu!


Acabo de me lembrar de uma pessoa que é um ícone da pureza original e um celeiro da "língua em uso" dos sertoes paraibanos. Para relatar suas peripécias linguísticas, a chamarei pelo pseudônimo de Dona Chiquinha, a mulher mais sabida que eu conheço. É como se ela estivesse na minha frente agora dizendo: Deixe de ser maluvida!!! Deixe de lundum!!! Eu sei là daquele cangueço!!! Bem, mas esta historia nao è para listar as pérolas desta lusofalante.
O que eu recordo fortemente agora é a historia relacionada ao nao uso dos artigos definidos antes dos substantivos próprios. Sem mais delongas, esclareço: Na Paraìba, como tambèm em outros estados nordestinos, nao se usa os artigos definidos antes dos nomes próprios. Por exemplo, nao se diz: o Severino, o Juvenal, o Vicente, mas, diz-se: Sever¡no, Juvenal, Vicente. Assim, a mulher sertaneja aqui em tela, sendo uma preciosidade da cultural local, desconhecia em plenitude o uso dos mencionados artigos lá pelas bandas de Sao Paulo. Por conseguinte, um dia, chega de Sao Paulo uma aderente sua, igualmente uma nativa das caatingas. Esta mulé, evidentemente chiando aqui e chiando acolá, afinal a dita cuja tinha passado por volta de uns três ou quarto meses em Sao Paulo, se "achegou" a dona Chiquinha e disse:
Dona Chiquinha: O Caio, meu menino, dar muito trabalho, o caio nao come, o caio nao estuda, o caio pra lá, o caio pra cá, assim foi a ladainha que imperou no decorrer de toda a prosa..... O Caio impressiou de todas as maneiras dona Tiquinha. Desculpem!!! Eu quis dizer dona Chiquinha.
Assim, chegando em casa, ela se endireitou no tamborete e começou a declamar a história e foi quando eu escutei ela dizer:
Rita da minha aima, pense num menino bonito o de minha parenta que chegou do sul, o menino è aivo que mais parece um santo desses de apregar na parede. E sabe como è o nome dele?
O nome dele è OCAIO.

E, sempre desembestando na gaitada, ela segue com seus comentários. E é debaixo do alpendre que Dona Chiquinha externa suas impressoes. Agora me lembro da história de Galega, uma das coroas da cidade que ela viu pulando carnaval em Coremas, história esta que antecedeu os comentários a respeito do seu primo Hespedito. Assim ela introduziu:


- Estamos no fim do mundo, eu vi uma coisa nesse carnaval que me deixou birmada, eu tô birmada até agora. Um escandêlo! Galega tava com o namorado pulando carnaval num rojão que ninguém pegava, o caritó dela tá com os dias contados. Ela tava vestida que só tu vendo.

- Eu, por minha vez, quis saber com que roupa estava a señorita Galega

Com o tom didático que ela nunca abandona, disse em sobressalto:

- Preste atenção, que vou lhe dizer como ela tava. Ela tava com essas roupas de hoje em dia, que eu não entendo direito. Era um calção desses de cota, curto e com uma brusinha encarnada e um corpete que agora vem com umas ta de alça de siliconha.

O bom è que, em suas ânsias por manifestar sua visao de mundo, ela corre de um assunto para o outro com a ligeireza do seu pensar. Assim, de imediato ela, do nada, desembestou numa gargalhada que espantou as janagaias que faziam ninho no telhado do alpendre. E, enquanto se entalava na achada de graça, ela se explicou:
- Eu tô aqui lembrando de Hespedito... (seu primo e o morador do sítio vizinho, responsável por mais da metade das gargalhadas de Dona Chiquinha). È que tu precisa ver como Hespedito fala errado, vixi Nossa Senhora do Perpé do Socorro!

- Tu acredita que Hespedito chama sala de culurgia de sala de fulusufia? E luquidificador, esses de fazer ponche, ele chama de contador, KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK.....


quinta-feira, 18 de junho de 2009

O SANTO


Como hoje é um dia em que eu acordei atormentada pelas minhas memórias, nao posso me furtar ao gosto de lembrar, antes de tudo, do Santo de minha avó Maria. Eu estou falando da escultura de gesso que, numa visao menos imaginativa muitos a confundem com a imagem de um outro personagem que nao era santo, mas que era homem muito sabido nas artes cênicas e na pantonima.
Bem, este acontecido envolve uma devota e sertaneja senhora e uma escultura comprada na feira semanal da cidade de Coremas, Estado da Paraíba, país Brasil. E, para nao pecar pela imprecisao, detalho que este verídico acontecimento teve como cenário o Sítio Barra – Riacho da Catinga, localizado na zona rural da cidade antes mencionada.
Tudo foi descoberto quando eu, em uma de minhas afamadas visitas aos meus pais, inventei de dar uma passada na casa de uma tia minha que, sendo uma mulher desposada, é a herdeira das mobílias e objetos pessoais de minha avó Maria.
Antes mesmo de emburacar casa a dentro, eu avistei na estante a escultura de Charles Chaplin, ou melhor de Carlitos, o Vagabundo (vide imagem ao lado). Eu fiquei bestinha quando vi, porque sendo eu conhecedora das paixoes de vovó, tinha conviccao de que nao era do seu gosto, aliás, nao era do seu conhecimento a existencia deste personagem do cinema mudo.
Quando foi no outro dia, minha tia chegou na casa de meus pais com esta escultura entre as maos e disse: Rita, eu prestei atencao que voce gostou muito deste santo e eu lhe trouxe de presente.
Santo???????????????????????????? Foi a primeira pregunta que me veio a cabeca, como assim, santo? Foi aí que eu entendi tudinho. O fato é que vovó, lá pelos idos dos anos setenta ou oitenta comprou Carlitos na feira livre de Coremas achando que era Padre Cícero. O que nao é de todo um despropósito, visto que Padin Padre Cícero se vestia de preto e usava igualmente um chapéu de mesma cor. Depois disso eu só imaginei vovó rezando defronte a esta escultura. Mas, o que vale é a fé.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Agonia e sorte


A história que ora conto é de grande serventia para alguma pessoa que vai sair pela primeira vez do seu país, mais especificamente, para os meus compatriotas e amigos brasileiros. E, se é um leitor que padece de distraçao crônica, a utilidade deste texto aumenta.
Em 2007 me veio o desafio de sair pela primeira vez do Brasil, sozinha, com destino à Espanha. Como eu sou famigeradamente distraída, vários amigos meus, preocupados, rogaram para eu desistir da empreitada, pois "era melhor a vida provinciana e segura que viver aventuras nos estrangeiros com a provável possibilidade de ficar de vez por là, perdida pelos cantos".
Enquanto isso, eu planejava a viagem... Fiz das minhas tripas coraçao para organizar metodicamente toda a minha mala, certifiquei-me mais de dez vezes de que nao faltava nada. Meus documentos, todos completíssimos, foram sistematicamente guardados em uma pasta.
Tudo ocorreu na mais absoluta perfeiçao no aeroporto de Recife, na alfândega em Lisboa e no Aeroporto de Barajas na Espanha, onde me esperava o melhor anfitriao que pode existir em terras espanholas, Juan.
No meu segundo dia em Madri, saímos para passear, Juan e eu, e nos dirigimos primeiramente a um locutório para eu ligar para minha casa e noticiar aos meus pais que eu estava mais viva que nunca, gozando de muita saúde e sucumbida em intermináveis emoçoes. Como eu nao consegui contato com o Sítio Barra-Riacho da Catinga, saí do locutório matutando.
Imersa neste profundo ato de matutar, com a preocupacao crescendo exponencialmente e depois de caminhar por uns 15 minutos, eu percebi que nao estava com minha bolsa de documentos. Foi quando, de imediato, constatei, surpresa e perplexamente, que tinha deixado no locutório a mencionada bolsa de documentos, onde estavam nada mais nada menos que meu passaporte e todos os documentos brasileiros, visto que minha falta de experiência nao me permitiram tomar conhecimento que na Espanha è prescindível o documento de identificaçao nacional, muito menos se necessita do CPF , e o que dizer do título de eleitor?
A minha identidade era o passaporte, isso tinha que entrar de vez em minha cabeça, mesmo que fosse depois de eu nao ter mais o bendito documento em maos.. Ah! O meu cartao de crédito também estava socado no meio da papelada.
Entretanto, o mais grave de tudo era que eu tinha deixado meu passaporte, O MEU PASSAPORTE, em um locutório, um lugar frequentado por muitos estrangeiros que se comunicam com suas famílias e é de conhecimento geral que há um razoável índice de imigrantes ilegais na Espanha que dariam tudo para ter um passaporte (pelo menos atè o ano de 2007).
Portanto, já no segundo dia em terras castelhanas, eu estava na ilegalidade, sem passaporte, na suposta iminência de ser enviada para casa. Eu também necessitava do passaporte para receber a bolsa de estudos do Ministério de Cultura, tramitaçao a ser realizada por todos os bolsistas na aula de abertura do curso.
Juan, percebendo a gravidade do caso, pediu para eu me acalmar e disse que iríamos resolver o problema. Assim, eu perdi a aula inaugural no Ministerio de Cultura para ir com Juan à Delegacia pedir um Boletin de Ocorrência e posteriormente à Embaixada Brasileira solicitar um novo passaporte. Até o dia de eu receber este novo passaporte, eu iria me rebolar com o BO.
Eu supliquei a Juan para que esta perda ficasse somente entre eu e ele, para que ninguém no Brasil soubesse, porque se este acontecimento viesse a ser divulgado entre meus familiares e amigos, a crise dramática e aguda de preocupaçao estaria instalada. Assim, guardamos o vergonhoso segredo.

Ressalto rapidamente um fator que interrompia o processo de resoluçao desta tragédia: eu acabava de chegar na Espanha e o sotaque espanhol para mim ainda era um indecifrável som que perturbava a minha auto-estima. Para minha pessoa, caiu por terra a popular afirmativa de que o espanhol é muito parecido com o português e que dava para se virar com o famoso portunhol, isso nao vale absolutamente para compreender o idioma falado. Mas este nao é o momento de aprofundar uma temática linguística. Dando seguimento à narrativa, Juan explicava e reexplicava os passos a seguir e em cada lugar que íamos eu saía com a cuca pegando fogo. Efetivamente, saliento também que estes apertos de comunicacao diminuiam com o passo dos tempos, pois, na hora da agonia se aprende tudo.

No dia seguinte, eu fui checar meus e-mails e fui vítima de um susto que quase arranca meu coraçao da caixa dos peitos! Davi, meu amigo brasileiro, enviou-me um e-mail no qual escreveu mais ou menos estas reveladoras palavras:
"Rita, você nao tem preparaçao psicológica para estar em um país estrangeiro, você vai nos matar de preocupaçao. O que eu fiquei sabendo, eu nao vou dizer a sua família porque se sua mae fica sabendo ela vai correr louca pelos tabuleiros do sertao paraibano. Eu recebi um e-mail de uma brasileira que está feito louca te buscando em Madri porque encontrou todos os seus documentos, inclusive, seu passaporte, em um locutório. Ela encontrou entre suas coisas o número do meu telefone e se deu ao trabalho de me ligar e pedir para entrar em contato com você para que você pegue seus documentos".

O fato è que eu perdi meu passaporte e demais documentos e estes foram encontrados justamente por uma brasileira honesta e de bom coraçao, dentro da cosmopolita Madri.
Assim, Juan e eu entramos em contato com esta brasileira, uma mineira gente finíssima e eu recuperei os meus documentos. Depois desta experiência, eu nunca mais perdi um friso dentro da Espanha.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

"Casamento nos estrangeiro"


Para minhas amigas (os) brasileiras (os) que vislumbram a possibilidade de um dia se casarem "nos estrangeiro", vou contar minha experiencia no que diz respeito ao tema "trâmites de documentos". Claro que a burocracia varia de país para país, mas, em todo caso rola um bom rebuliço, para o qual todos devem estar preparados, sobretudo, se o casorio vai ser em um país cujo idioma nao é o nativo.
Por conseguinte, para o caso de que haja mais alguém que faria a loucura de amor que eu fiz, conto a minha trajetória.
Ei-la:
Para eu me casar no Perú, precisei dos seguintes documentos:
1. Certidao de nascimento com data atualizada (com vigência mínima de três meses);
2. Certidao de estado civil, ou seja, uma prova documental de solteiriçe.
3. Passaporte.
Entao, primeiramente busquei o cartório no qual foi registrado o meu lindo nascimento para pedir a segunda via da certidao.
No caso aqui relatado, o cartório está localizado em Coremas - Paraíba. A paga por este documento foi 46 reais, 40 reais pela certidao e 6 reais pelo reconhecimento de firma, porque, detalhe, nenhum documento deve está despossuído de reconhecimento de firma.
Pulando aqui as agonias para conseguir este documento e transportá-lo atè Joao Pessoa, dou seguimento à narrativa. Com esta etapa cumprida, eu me dirigi a um cartorio de Joao Pessoa, cidade onde eu vivia, para solicitar a certidao de solteira. Para requerer este documento, sao necessàrias duas testemunhas, o tramite custa 80 reais e atè a data na qual eu solicitei a minha, somente o Cartorio Azevedo Bastos fazia este documento em Joao Pessoa (a menos que eu tenha me "informado mal").
O passaporte eu já tinha, mas isso todo mundo sabe que se solicita na Polìcia Federal. Eu gastei pelo meu 135 reais (2007).
Com todos estes documentos em maos, o próximo passo foi levar os documentos para o consulado do país no qual eu iria contrair matrimônio, isto é, o Consulado do Perú, ressaltando aqui que o mais proximo de Joao Pessoa era o de Salvador-Bahia.
Daì, num surto de raciocínio provindo da infalível misericórida de Deus em minha turbulenta vida, eu constatei que poderia fazer este trâmite no Consulado Geral do Perú em Sao Paulo, já que minha passagem para Lima eu havia comprado partindo de Sao Paulo, devido às promoçoes de passagens aèreas.
Logo, comprei a passagem Joao Pessoa - Sao Paulo uma semana antes da passagem Sao Paulo - Lima, isso porque eu nao sou gente no mundo nem nunca serei. Com esta idéia, eu ainda aproveitei para passar uma semana ao lado de meu irmao e minha cunhada na metrópole dos maiores contrastes.
Encontrar o Consulado do Perú em Sao Paulo sozinha e Deus nao foi tarefa das mais simples. Eu me ariei umas cinco vezes até chegar ao oculto destino, pois, ninguém nas ruas paulistanas tinha idéia de onde se localizava dito consulado. Eu tive que ir sozinha porque meu irmao e minha cunhada trabalham o dia todinho. Eu peguei um ônibus, desci na Avenida Brasil e fui procurar o endereço. Depois de 40 minutos de corrida, finalmente cheguei ao local, para descobrir, através de um informante, que o consulado havia mudado de endereço. Dessa maneira, eu perambulei mais uma hora para achar o novo local, andando rápido e só parando para fazer perguntaria a transeuntes muito bem selecionados por minhas vistas assombradas com medo de assalto.
Bem, chegando ao perseguido consulado, eu paguei 90 reais para visar cada documento. Como eram dois, eu me desprendi, nao sem lágrimas nos olhos, de 180 reais.
Após estes poucos apertos, seguimos as tramitaçoes no Perú, aqui o verbo está na primeira pessoa do plural porque eu já contava com a companhia do meu noivo, David.
Chegando em Lima, como nem só de amor vive o casal que nao quer somente juntar os panos de bunda e inventa de casar "nos papé", fomos imediatamtente ao Ministério de Relaçoes Exteriores para legalizar os meus documentos. Para repetir pela ultima vez a ladainha, estes documentos eram a Certidao de Nascimento e o documento de solteira.
Por cada legalizaçao de documento, pagamos 35 soles, total-geral 70 soles.
Por fim, os meus documentos jà estavam prontos para serem TRADUZIDOS PARA O IDIOMA OFICIAL DO PERÚ, QUAL SEJA, O ESPAÑOL.
Claro que estes documentos nao podiam ser traduzidos por qualquer pessoa, tinha que ser por um tradutor oficial, juramentado, isso vale para a traduçao de qualquer documento que vai ser tramitado em país estranjeiro, seja para casamento, seja para estudar, enfim...
Pegamos a lista dos tradutores oficiais peruanos no Ministerio de Relaçoes Exteriores e entramos em contato com eles via e-mail. Detalhe, nao existe aqui no Perú uma tarifa única para a traduçao de documentos, de maneira que cada tradutor bodejava, de acordo com sua consciência, um preço particular e houve uns que tiveram o displante de cobrar mais de 100 soles por cada documento.
Depois de muito moído, encontramos uma senhora que cobrou 85 soles pelos dois documentos (ufa!).
Subsequentemente, fizemos o exame médico pré - nupcial, que é obrigatório aqui no Perú. Pagamos 45 soles, cada um, pelo exame, totalizando 90 soles.
Com estes documentos prontos e completos (os meus traduzidos), nos encaminhamos a "municipalidad" de Miraflores, onde íamos nos casar.
Na municipalidad, pagamos 43 soles pelo "expediente matrimonial", processo no qual a municipalidad verifica todos os nossos documentos e dá entrada ao pedido de casamento. No mesmo dia, pagamos 35 soles pela obrigatória publicaçao do "edicto matrimonial" em algum jornal de circulaçao aqui no Perú.
Com todos os trâmites concluìdos, finalmente pudemos marcar a data do casamento e pagamos a taxa de matrimonio, a qual custou 300 soles.
Nosso casamento ocorreu no dia 10 de Junho de 2009, apòs toda esta batalha burocrática e porque também nao dizer econômica?
Bem, por ultimo, uma breve recomendaçao as moçoilas e cavalheiros:
Serà que vale a pena realizar todos estes trâmites trabalhosos e onerosos? Só vale a pena se è para estar ao lado do amor de sua vida. Apeguem-se às palavras de Fernando Pessoa, quando disse:
"Tudo vale a pena quando a alma não é pequena".