quinta-feira, 18 de junho de 2009

O SANTO


Como hoje é um dia em que eu acordei atormentada pelas minhas memórias, nao posso me furtar ao gosto de lembrar, antes de tudo, do Santo de minha avó Maria. Eu estou falando da escultura de gesso que, numa visao menos imaginativa muitos a confundem com a imagem de um outro personagem que nao era santo, mas que era homem muito sabido nas artes cênicas e na pantonima.
Bem, este acontecido envolve uma devota e sertaneja senhora e uma escultura comprada na feira semanal da cidade de Coremas, Estado da Paraíba, país Brasil. E, para nao pecar pela imprecisao, detalho que este verídico acontecimento teve como cenário o Sítio Barra – Riacho da Catinga, localizado na zona rural da cidade antes mencionada.
Tudo foi descoberto quando eu, em uma de minhas afamadas visitas aos meus pais, inventei de dar uma passada na casa de uma tia minha que, sendo uma mulher desposada, é a herdeira das mobílias e objetos pessoais de minha avó Maria.
Antes mesmo de emburacar casa a dentro, eu avistei na estante a escultura de Charles Chaplin, ou melhor de Carlitos, o Vagabundo (vide imagem ao lado). Eu fiquei bestinha quando vi, porque sendo eu conhecedora das paixoes de vovó, tinha conviccao de que nao era do seu gosto, aliás, nao era do seu conhecimento a existencia deste personagem do cinema mudo.
Quando foi no outro dia, minha tia chegou na casa de meus pais com esta escultura entre as maos e disse: Rita, eu prestei atencao que voce gostou muito deste santo e eu lhe trouxe de presente.
Santo???????????????????????????? Foi a primeira pregunta que me veio a cabeca, como assim, santo? Foi aí que eu entendi tudinho. O fato é que vovó, lá pelos idos dos anos setenta ou oitenta comprou Carlitos na feira livre de Coremas achando que era Padre Cícero. O que nao é de todo um despropósito, visto que Padin Padre Cícero se vestia de preto e usava igualmente um chapéu de mesma cor. Depois disso eu só imaginei vovó rezando defronte a esta escultura. Mas, o que vale é a fé.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Agonia e sorte


A história que ora conto é de grande serventia para alguma pessoa que vai sair pela primeira vez do seu país, mais especificamente, para os meus compatriotas e amigos brasileiros. E, se é um leitor que padece de distraçao crônica, a utilidade deste texto aumenta.
Em 2007 me veio o desafio de sair pela primeira vez do Brasil, sozinha, com destino à Espanha. Como eu sou famigeradamente distraída, vários amigos meus, preocupados, rogaram para eu desistir da empreitada, pois "era melhor a vida provinciana e segura que viver aventuras nos estrangeiros com a provável possibilidade de ficar de vez por là, perdida pelos cantos".
Enquanto isso, eu planejava a viagem... Fiz das minhas tripas coraçao para organizar metodicamente toda a minha mala, certifiquei-me mais de dez vezes de que nao faltava nada. Meus documentos, todos completíssimos, foram sistematicamente guardados em uma pasta.
Tudo ocorreu na mais absoluta perfeiçao no aeroporto de Recife, na alfândega em Lisboa e no Aeroporto de Barajas na Espanha, onde me esperava o melhor anfitriao que pode existir em terras espanholas, Juan.
No meu segundo dia em Madri, saímos para passear, Juan e eu, e nos dirigimos primeiramente a um locutório para eu ligar para minha casa e noticiar aos meus pais que eu estava mais viva que nunca, gozando de muita saúde e sucumbida em intermináveis emoçoes. Como eu nao consegui contato com o Sítio Barra-Riacho da Catinga, saí do locutório matutando.
Imersa neste profundo ato de matutar, com a preocupacao crescendo exponencialmente e depois de caminhar por uns 15 minutos, eu percebi que nao estava com minha bolsa de documentos. Foi quando, de imediato, constatei, surpresa e perplexamente, que tinha deixado no locutório a mencionada bolsa de documentos, onde estavam nada mais nada menos que meu passaporte e todos os documentos brasileiros, visto que minha falta de experiência nao me permitiram tomar conhecimento que na Espanha è prescindível o documento de identificaçao nacional, muito menos se necessita do CPF , e o que dizer do título de eleitor?
A minha identidade era o passaporte, isso tinha que entrar de vez em minha cabeça, mesmo que fosse depois de eu nao ter mais o bendito documento em maos.. Ah! O meu cartao de crédito também estava socado no meio da papelada.
Entretanto, o mais grave de tudo era que eu tinha deixado meu passaporte, O MEU PASSAPORTE, em um locutório, um lugar frequentado por muitos estrangeiros que se comunicam com suas famílias e é de conhecimento geral que há um razoável índice de imigrantes ilegais na Espanha que dariam tudo para ter um passaporte (pelo menos atè o ano de 2007).
Portanto, já no segundo dia em terras castelhanas, eu estava na ilegalidade, sem passaporte, na suposta iminência de ser enviada para casa. Eu também necessitava do passaporte para receber a bolsa de estudos do Ministério de Cultura, tramitaçao a ser realizada por todos os bolsistas na aula de abertura do curso.
Juan, percebendo a gravidade do caso, pediu para eu me acalmar e disse que iríamos resolver o problema. Assim, eu perdi a aula inaugural no Ministerio de Cultura para ir com Juan à Delegacia pedir um Boletin de Ocorrência e posteriormente à Embaixada Brasileira solicitar um novo passaporte. Até o dia de eu receber este novo passaporte, eu iria me rebolar com o BO.
Eu supliquei a Juan para que esta perda ficasse somente entre eu e ele, para que ninguém no Brasil soubesse, porque se este acontecimento viesse a ser divulgado entre meus familiares e amigos, a crise dramática e aguda de preocupaçao estaria instalada. Assim, guardamos o vergonhoso segredo.

Ressalto rapidamente um fator que interrompia o processo de resoluçao desta tragédia: eu acabava de chegar na Espanha e o sotaque espanhol para mim ainda era um indecifrável som que perturbava a minha auto-estima. Para minha pessoa, caiu por terra a popular afirmativa de que o espanhol é muito parecido com o português e que dava para se virar com o famoso portunhol, isso nao vale absolutamente para compreender o idioma falado. Mas este nao é o momento de aprofundar uma temática linguística. Dando seguimento à narrativa, Juan explicava e reexplicava os passos a seguir e em cada lugar que íamos eu saía com a cuca pegando fogo. Efetivamente, saliento também que estes apertos de comunicacao diminuiam com o passo dos tempos, pois, na hora da agonia se aprende tudo.

No dia seguinte, eu fui checar meus e-mails e fui vítima de um susto que quase arranca meu coraçao da caixa dos peitos! Davi, meu amigo brasileiro, enviou-me um e-mail no qual escreveu mais ou menos estas reveladoras palavras:
"Rita, você nao tem preparaçao psicológica para estar em um país estrangeiro, você vai nos matar de preocupaçao. O que eu fiquei sabendo, eu nao vou dizer a sua família porque se sua mae fica sabendo ela vai correr louca pelos tabuleiros do sertao paraibano. Eu recebi um e-mail de uma brasileira que está feito louca te buscando em Madri porque encontrou todos os seus documentos, inclusive, seu passaporte, em um locutório. Ela encontrou entre suas coisas o número do meu telefone e se deu ao trabalho de me ligar e pedir para entrar em contato com você para que você pegue seus documentos".

O fato è que eu perdi meu passaporte e demais documentos e estes foram encontrados justamente por uma brasileira honesta e de bom coraçao, dentro da cosmopolita Madri.
Assim, Juan e eu entramos em contato com esta brasileira, uma mineira gente finíssima e eu recuperei os meus documentos. Depois desta experiência, eu nunca mais perdi um friso dentro da Espanha.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

"Casamento nos estrangeiro"


Para minhas amigas (os) brasileiras (os) que vislumbram a possibilidade de um dia se casarem "nos estrangeiro", vou contar minha experiencia no que diz respeito ao tema "trâmites de documentos". Claro que a burocracia varia de país para país, mas, em todo caso rola um bom rebuliço, para o qual todos devem estar preparados, sobretudo, se o casorio vai ser em um país cujo idioma nao é o nativo.
Por conseguinte, para o caso de que haja mais alguém que faria a loucura de amor que eu fiz, conto a minha trajetória.
Ei-la:
Para eu me casar no Perú, precisei dos seguintes documentos:
1. Certidao de nascimento com data atualizada (com vigência mínima de três meses);
2. Certidao de estado civil, ou seja, uma prova documental de solteiriçe.
3. Passaporte.
Entao, primeiramente busquei o cartório no qual foi registrado o meu lindo nascimento para pedir a segunda via da certidao.
No caso aqui relatado, o cartório está localizado em Coremas - Paraíba. A paga por este documento foi 46 reais, 40 reais pela certidao e 6 reais pelo reconhecimento de firma, porque, detalhe, nenhum documento deve está despossuído de reconhecimento de firma.
Pulando aqui as agonias para conseguir este documento e transportá-lo atè Joao Pessoa, dou seguimento à narrativa. Com esta etapa cumprida, eu me dirigi a um cartorio de Joao Pessoa, cidade onde eu vivia, para solicitar a certidao de solteira. Para requerer este documento, sao necessàrias duas testemunhas, o tramite custa 80 reais e atè a data na qual eu solicitei a minha, somente o Cartorio Azevedo Bastos fazia este documento em Joao Pessoa (a menos que eu tenha me "informado mal").
O passaporte eu já tinha, mas isso todo mundo sabe que se solicita na Polìcia Federal. Eu gastei pelo meu 135 reais (2007).
Com todos estes documentos em maos, o próximo passo foi levar os documentos para o consulado do país no qual eu iria contrair matrimônio, isto é, o Consulado do Perú, ressaltando aqui que o mais proximo de Joao Pessoa era o de Salvador-Bahia.
Daì, num surto de raciocínio provindo da infalível misericórida de Deus em minha turbulenta vida, eu constatei que poderia fazer este trâmite no Consulado Geral do Perú em Sao Paulo, já que minha passagem para Lima eu havia comprado partindo de Sao Paulo, devido às promoçoes de passagens aèreas.
Logo, comprei a passagem Joao Pessoa - Sao Paulo uma semana antes da passagem Sao Paulo - Lima, isso porque eu nao sou gente no mundo nem nunca serei. Com esta idéia, eu ainda aproveitei para passar uma semana ao lado de meu irmao e minha cunhada na metrópole dos maiores contrastes.
Encontrar o Consulado do Perú em Sao Paulo sozinha e Deus nao foi tarefa das mais simples. Eu me ariei umas cinco vezes até chegar ao oculto destino, pois, ninguém nas ruas paulistanas tinha idéia de onde se localizava dito consulado. Eu tive que ir sozinha porque meu irmao e minha cunhada trabalham o dia todinho. Eu peguei um ônibus, desci na Avenida Brasil e fui procurar o endereço. Depois de 40 minutos de corrida, finalmente cheguei ao local, para descobrir, através de um informante, que o consulado havia mudado de endereço. Dessa maneira, eu perambulei mais uma hora para achar o novo local, andando rápido e só parando para fazer perguntaria a transeuntes muito bem selecionados por minhas vistas assombradas com medo de assalto.
Bem, chegando ao perseguido consulado, eu paguei 90 reais para visar cada documento. Como eram dois, eu me desprendi, nao sem lágrimas nos olhos, de 180 reais.
Após estes poucos apertos, seguimos as tramitaçoes no Perú, aqui o verbo está na primeira pessoa do plural porque eu já contava com a companhia do meu noivo, David.
Chegando em Lima, como nem só de amor vive o casal que nao quer somente juntar os panos de bunda e inventa de casar "nos papé", fomos imediatamtente ao Ministério de Relaçoes Exteriores para legalizar os meus documentos. Para repetir pela ultima vez a ladainha, estes documentos eram a Certidao de Nascimento e o documento de solteira.
Por cada legalizaçao de documento, pagamos 35 soles, total-geral 70 soles.
Por fim, os meus documentos jà estavam prontos para serem TRADUZIDOS PARA O IDIOMA OFICIAL DO PERÚ, QUAL SEJA, O ESPAÑOL.
Claro que estes documentos nao podiam ser traduzidos por qualquer pessoa, tinha que ser por um tradutor oficial, juramentado, isso vale para a traduçao de qualquer documento que vai ser tramitado em país estranjeiro, seja para casamento, seja para estudar, enfim...
Pegamos a lista dos tradutores oficiais peruanos no Ministerio de Relaçoes Exteriores e entramos em contato com eles via e-mail. Detalhe, nao existe aqui no Perú uma tarifa única para a traduçao de documentos, de maneira que cada tradutor bodejava, de acordo com sua consciência, um preço particular e houve uns que tiveram o displante de cobrar mais de 100 soles por cada documento.
Depois de muito moído, encontramos uma senhora que cobrou 85 soles pelos dois documentos (ufa!).
Subsequentemente, fizemos o exame médico pré - nupcial, que é obrigatório aqui no Perú. Pagamos 45 soles, cada um, pelo exame, totalizando 90 soles.
Com estes documentos prontos e completos (os meus traduzidos), nos encaminhamos a "municipalidad" de Miraflores, onde íamos nos casar.
Na municipalidad, pagamos 43 soles pelo "expediente matrimonial", processo no qual a municipalidad verifica todos os nossos documentos e dá entrada ao pedido de casamento. No mesmo dia, pagamos 35 soles pela obrigatória publicaçao do "edicto matrimonial" em algum jornal de circulaçao aqui no Perú.
Com todos os trâmites concluìdos, finalmente pudemos marcar a data do casamento e pagamos a taxa de matrimonio, a qual custou 300 soles.
Nosso casamento ocorreu no dia 10 de Junho de 2009, apòs toda esta batalha burocrática e porque também nao dizer econômica?
Bem, por ultimo, uma breve recomendaçao as moçoilas e cavalheiros:
Serà que vale a pena realizar todos estes trâmites trabalhosos e onerosos? Só vale a pena se è para estar ao lado do amor de sua vida. Apeguem-se às palavras de Fernando Pessoa, quando disse:
"Tudo vale a pena quando a alma não é pequena".