
A história que ora conto é de grande serventia para alguma pessoa que vai sair pela primeira vez do seu país, mais especificamente, para os meus compatriotas e amigos brasileiros. E, se é um leitor que padece de distraçao crônica, a utilidade deste texto aumenta.
Em 2007 me veio o desafio de sair pela primeira vez do Brasil, sozinha, com destino à Espanha. Como eu sou famigeradamente distraída, vários amigos meus, preocupados, rogaram para eu desistir da empreitada, pois "era melhor a vida provinciana e segura que viver aventuras nos estrangeiros com a provável possibilidade de ficar de vez por là, perdida pelos cantos".
Enquanto isso, eu planejava a viagem... Fiz das minhas tripas coraçao para organizar metodicamente toda a minha mala, certifiquei-me mais de dez vezes de que nao faltava nada. Meus documentos, todos completíssimos, foram sistematicamente guardados em uma pasta.
Tudo ocorreu na mais absoluta perfeiçao no aeroporto de Recife, na alfândega em Lisboa e no Aeroporto de Barajas na Espanha, onde me esperava o melhor anfitriao que pode existir em terras espanholas, Juan.
No meu segundo dia em Madri, saímos para passear, Juan e eu, e nos dirigimos primeiramente a um locutório para eu ligar para minha casa e noticiar aos meus pais que eu estava mais viva que nunca, gozando de muita saúde e sucumbida em intermináveis emoçoes. Como eu nao consegui contato com o Sítio Barra-Riacho da Catinga, saí do locutório matutando.
Imersa neste profundo ato de matutar, com a preocupacao crescendo exponencialmente e depois de caminhar por uns 15 minutos, eu percebi que nao estava com minha bolsa de documentos. Foi quando, de imediato, constatei, surpresa e perplexamente, que tinha deixado no locutório a mencionada bolsa de documentos, onde estavam nada mais nada menos que meu passaporte e todos os documentos brasileiros, visto que minha falta de experiência nao me permitiram tomar conhecimento que na Espanha è prescindível o documento de identificaçao nacional, muito menos se necessita do CPF , e o que dizer do título de eleitor?
A minha identidade era o passaporte, isso tinha que entrar de vez em minha cabeça, mesmo que fosse depois de eu nao ter mais o bendito documento em maos.. Ah! O meu cartao de crédito também estava socado no meio da papelada.
Entretanto, o mais grave de tudo era que eu tinha deixado meu passaporte, O MEU PASSAPORTE, em um locutório, um lugar frequentado por muitos estrangeiros que se comunicam com suas famílias e é de conhecimento geral que há um razoável índice de imigrantes ilegais na Espanha que dariam tudo para ter um passaporte (pelo menos atè o ano de 2007).
Portanto, já no segundo dia em terras castelhanas, eu estava na ilegalidade, sem passaporte, na suposta iminência de ser enviada para casa. Eu também necessitava do passaporte para receber a bolsa de estudos do Ministério de Cultura, tramitaçao a ser realizada por todos os bolsistas na aula de abertura do curso.
Juan, percebendo a gravidade do caso, pediu para eu me acalmar e disse que iríamos resolver o problema. Assim, eu perdi a aula inaugural no Ministerio de Cultura para ir com Juan à Delegacia pedir um Boletin de Ocorrência e posteriormente à Embaixada Brasileira solicitar um novo passaporte. Até o dia de eu receber este novo passaporte, eu iria me rebolar com o BO.
Eu supliquei a Juan para que esta perda ficasse somente entre eu e ele, para que ninguém no Brasil soubesse, porque se este acontecimento viesse a ser divulgado entre meus familiares e amigos, a crise dramática e aguda de preocupaçao estaria instalada. Assim, guardamos o vergonhoso segredo.
Ressalto rapidamente um fator que interrompia o processo de resoluçao desta tragédia: eu acabava de chegar na Espanha e o sotaque espanhol para mim ainda era um indecifrável som que perturbava a minha auto-estima. Para minha pessoa, caiu por terra a popular afirmativa de que o espanhol é muito parecido com o português e que dava para se virar com o famoso portunhol, isso nao vale absolutamente para compreender o idioma falado. Mas este nao é o momento de aprofundar uma temática linguística. Dando seguimento à narrativa, Juan explicava e reexplicava os passos a seguir e em cada lugar que íamos eu saía com a cuca pegando fogo. Efetivamente, saliento também que estes apertos de comunicacao diminuiam com o passo dos tempos, pois, na hora da agonia se aprende tudo.
No dia seguinte, eu fui checar meus e-mails e fui vítima de um susto que quase arranca meu coraçao da caixa dos peitos! Davi, meu amigo brasileiro, enviou-me um e-mail no qual escreveu mais ou menos estas reveladoras palavras:
"Rita, você nao tem preparaçao psicológica para estar em um país estrangeiro, você vai nos matar de preocupaçao. O que eu fiquei sabendo, eu nao vou dizer a sua família porque se sua mae fica sabendo ela vai correr louca pelos tabuleiros do sertao paraibano. Eu recebi um e-mail de uma brasileira que está feito louca te buscando em Madri porque encontrou todos os seus documentos, inclusive, seu passaporte, em um locutório. Ela encontrou entre suas coisas o número do meu telefone e se deu ao trabalho de me ligar e pedir para entrar em contato com você para que você pegue seus documentos".
O fato è que eu perdi meu passaporte e demais documentos e estes foram encontrados justamente por uma brasileira honesta e de bom coraçao, dentro da cosmopolita Madri.
Assim, Juan e eu entramos em contato com esta brasileira, uma mineira gente finíssima e eu recuperei os meus documentos. Depois desta experiência, eu nunca mais perdi um friso dentro da Espanha.
Em 2007 me veio o desafio de sair pela primeira vez do Brasil, sozinha, com destino à Espanha. Como eu sou famigeradamente distraída, vários amigos meus, preocupados, rogaram para eu desistir da empreitada, pois "era melhor a vida provinciana e segura que viver aventuras nos estrangeiros com a provável possibilidade de ficar de vez por là, perdida pelos cantos".
Enquanto isso, eu planejava a viagem... Fiz das minhas tripas coraçao para organizar metodicamente toda a minha mala, certifiquei-me mais de dez vezes de que nao faltava nada. Meus documentos, todos completíssimos, foram sistematicamente guardados em uma pasta.
Tudo ocorreu na mais absoluta perfeiçao no aeroporto de Recife, na alfândega em Lisboa e no Aeroporto de Barajas na Espanha, onde me esperava o melhor anfitriao que pode existir em terras espanholas, Juan.
No meu segundo dia em Madri, saímos para passear, Juan e eu, e nos dirigimos primeiramente a um locutório para eu ligar para minha casa e noticiar aos meus pais que eu estava mais viva que nunca, gozando de muita saúde e sucumbida em intermináveis emoçoes. Como eu nao consegui contato com o Sítio Barra-Riacho da Catinga, saí do locutório matutando.
Imersa neste profundo ato de matutar, com a preocupacao crescendo exponencialmente e depois de caminhar por uns 15 minutos, eu percebi que nao estava com minha bolsa de documentos. Foi quando, de imediato, constatei, surpresa e perplexamente, que tinha deixado no locutório a mencionada bolsa de documentos, onde estavam nada mais nada menos que meu passaporte e todos os documentos brasileiros, visto que minha falta de experiência nao me permitiram tomar conhecimento que na Espanha è prescindível o documento de identificaçao nacional, muito menos se necessita do CPF , e o que dizer do título de eleitor?
A minha identidade era o passaporte, isso tinha que entrar de vez em minha cabeça, mesmo que fosse depois de eu nao ter mais o bendito documento em maos.. Ah! O meu cartao de crédito também estava socado no meio da papelada.
Entretanto, o mais grave de tudo era que eu tinha deixado meu passaporte, O MEU PASSAPORTE, em um locutório, um lugar frequentado por muitos estrangeiros que se comunicam com suas famílias e é de conhecimento geral que há um razoável índice de imigrantes ilegais na Espanha que dariam tudo para ter um passaporte (pelo menos atè o ano de 2007).
Portanto, já no segundo dia em terras castelhanas, eu estava na ilegalidade, sem passaporte, na suposta iminência de ser enviada para casa. Eu também necessitava do passaporte para receber a bolsa de estudos do Ministério de Cultura, tramitaçao a ser realizada por todos os bolsistas na aula de abertura do curso.
Juan, percebendo a gravidade do caso, pediu para eu me acalmar e disse que iríamos resolver o problema. Assim, eu perdi a aula inaugural no Ministerio de Cultura para ir com Juan à Delegacia pedir um Boletin de Ocorrência e posteriormente à Embaixada Brasileira solicitar um novo passaporte. Até o dia de eu receber este novo passaporte, eu iria me rebolar com o BO.
Eu supliquei a Juan para que esta perda ficasse somente entre eu e ele, para que ninguém no Brasil soubesse, porque se este acontecimento viesse a ser divulgado entre meus familiares e amigos, a crise dramática e aguda de preocupaçao estaria instalada. Assim, guardamos o vergonhoso segredo.
Ressalto rapidamente um fator que interrompia o processo de resoluçao desta tragédia: eu acabava de chegar na Espanha e o sotaque espanhol para mim ainda era um indecifrável som que perturbava a minha auto-estima. Para minha pessoa, caiu por terra a popular afirmativa de que o espanhol é muito parecido com o português e que dava para se virar com o famoso portunhol, isso nao vale absolutamente para compreender o idioma falado. Mas este nao é o momento de aprofundar uma temática linguística. Dando seguimento à narrativa, Juan explicava e reexplicava os passos a seguir e em cada lugar que íamos eu saía com a cuca pegando fogo. Efetivamente, saliento também que estes apertos de comunicacao diminuiam com o passo dos tempos, pois, na hora da agonia se aprende tudo.
No dia seguinte, eu fui checar meus e-mails e fui vítima de um susto que quase arranca meu coraçao da caixa dos peitos! Davi, meu amigo brasileiro, enviou-me um e-mail no qual escreveu mais ou menos estas reveladoras palavras:
"Rita, você nao tem preparaçao psicológica para estar em um país estrangeiro, você vai nos matar de preocupaçao. O que eu fiquei sabendo, eu nao vou dizer a sua família porque se sua mae fica sabendo ela vai correr louca pelos tabuleiros do sertao paraibano. Eu recebi um e-mail de uma brasileira que está feito louca te buscando em Madri porque encontrou todos os seus documentos, inclusive, seu passaporte, em um locutório. Ela encontrou entre suas coisas o número do meu telefone e se deu ao trabalho de me ligar e pedir para entrar em contato com você para que você pegue seus documentos".
O fato è que eu perdi meu passaporte e demais documentos e estes foram encontrados justamente por uma brasileira honesta e de bom coraçao, dentro da cosmopolita Madri.
Assim, Juan e eu entramos em contato com esta brasileira, uma mineira gente finíssima e eu recuperei os meus documentos. Depois desta experiência, eu nunca mais perdi um friso dentro da Espanha.
A sua vida é realmente uma crônica...rs... E o email é bem a cara de Davi....rsrsrsrs
ResponderExcluirAdorei a história, e principalmente o final dela.