sábado, 31 de outubro de 2009

Aqui num é Currema não!


Vergonha todo mundo passa. Mas, há certos acontecidos que não são destinados a qualquer vivente. Neste momento estou recordando uma agonia que estoicamente suportei no seio da mestrópole paulistana. Este infortúnio sucedeu quando eu, uma estudante provinda das brenhas do sertão paraibano, rumei para a cidade de São Paulo com a missão de apresentar um trabalho acadêmico em um evento. Desconhecedora que era da mencionada metrópole, necessitei de um guia nos primeiros dias. Entre todos os parentes nordestinos que radicavam em São Paulo, foi nomeado para tal cargo o meu primo Zé Branco. Apresento-o:

Zé Branco é um homem que, como o próprio apelido denuncia, é branco, porém, que fica bastante vermelho quando se expõe ao sol.
Zé Branco nasceu na zona rural do Município de Coremas, entretanto, foi morar em São Paulo na aurora da adolescência. Evidentemente, integrou-se às levas de nordestinos que deixaram os sertões tórridos nos anos setenta. Desde estes difíceis tempos, Zé Branco voltou a Coremas somente para ligeiras visitas.
Zé Branco não sabe ler, nem escrever, mas uma coisa ele sabe fazer com maestria, deslocar-se em São Paulo, quer seja de ônibus, trem ou metrô. Ele viu São Paulo crescer e inchar.
Por penúltimo, é necessário acrescentar que Zé Branco tem um problema nas cordas vocais que o impede de pronunciar alguns fonemas. E, apesar de viver em São Paulo há muito tempo, nunca foi do seu feitio falar chiando.
Por último, registro que Zé Branco é oriundo de uma casta de teimosos, de um tipo de gente difícil de tirar uma teima do quengo. E, em sua visao de mundo, eu ainda era a menininha buchuda que ele deixou lá no sertao há mais de vinte e tantos anos.

Esclarecida a lengalenga da contextualização do fato, passo á narrativa do fato:

Na manhã da segunda-feira Zé Branco me acordou duas horas antes do tempo combinado. Assim, saímos desbravando o frio da madrugada paulistana, Zé Branco na frente e eu atrás, dando início ao furdunço. Mal fechamos a porta que dava para a rua, Zé Branco gritou, de modo a explodir os tímpanos do público transeunte:
- Avia ligeiro que aqui num é Currema não!!!
E assim foi nossa travessia rumo à estaçao do trem, com Zé Branco repetindo seu "Avia ligeiro que aqui num é Currema nao" e me segurando pela munheca com a certeza plena de que eu não sabia me mover numa cidade do tamanho de Sao Paulo.

Chegando à estação, a espera pelo trem se deu com a palestra que Zé Branco ministrou, concluindo com um rosário de recomendações, enquanto todo mundo nos olhava. O fato é que Zé Branco só faltou subir nas cadeiras, tamanha era a gana de ser compreendido por mim.

Quando o trem chegou, Zé Branco, ignorando a fila de passageiros, adentrou-o mais ligeiro que coiçe de bacorinho e sem esquecer minha pessoa, a qual ele sapecou dentro de dito trem como quem rebola um saco de batata dentro de uma caminhoneta.
Quando o trem recomeçou seu itinerário, Zé Branco gritou sem dó:
- Se sigura pra num cair, tu num ta em Currema não! Rita da cabeçinha chata, esse trem é pior que correnteza de ri em inverno brabo.

Não sei se preciso mencionar que todos os passageiros se voltaram para mim, uns tiveram pena de minha infortunada pessoa e somente dedicaram um discreto rabo de olho, mas a maioria queria saber quem era a pareia, de modo que torcia a cabeça aos desesperos para nos avistar.
Eu fiquei imóvel, sem olhar para os lados e a única coisa que me ocorreu foi dar um beliscão de cinco voltas nos braços do meu primo Zé Branco para ele se calar. Depois disso, traumatizada pela derrota dos meus beliscões, limitei-me a escutar, junto com os passageiros presentes, o seguimento da conferencia exaltada, cheia de metáforas e comparações, a qual conduzia todos ao sertão nordestino.

Quando finalmente chegamos ao nosso destino e meu coraçao começou a ser restaurado pelo alívio, ouviu-se o brado de Zé Branco:
Chegueeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeemo!
Assim, eu, ainda viva, apesar de intensamente abatida pelo revés da vergonha, saí do trem e Zé Branco no meu encalço, correndo para agarrar meu braço.

Quando entramos na USP, eu encontrei fôlego e falei:
- Pronto, Zé Branco, estou entregue, agora você pode ir. Senhor da situação, Zé Branco se virou para mim e replicou:
- Tu tá doida deu largar você aqui? Essa universidade dá dez de Currema, tu ta doida? Aqui num é Currema não, bichinha.

Feita a vontade de Zé Branco, pegamos o circular dentro da USP com destino ao Departamento de Geografia. Havia no caminho placas indicativas de todos os locais da universidade, por conseguinte, qualquer pessoa alfabetizada se orientaria facilmente.
Todavia, Zé Branco chegou até minha pessoa e vociferou:
- Pergunte ao motorista onde é o lugar que você vai ficar, como é mermo o nome do lugar onde tu vai ficar?
Eu caí na asneira de contrariá-lo e fui explicar sobre as placas e não pude. Ele me interrompeu de modo a abalar o ônibus:
- Pergunta ao motorista onde é que você vai ficar, tu num ta em Currema não!Tu tá pensando que tá andando pela rodagem lá do Sítio Pau-Ferrado e que só pode encontrar pela frente topada em lageiro de pedra e cobra de cipó?
Todos os estudantes que estavam no ônibus nos olharam. Esgotada emocionalmente e sem cara para mais nada, eu fui pedir informações ao motorista. Preocupado, Zé Branco ainda bradou:
- Preste atenção pra gente num passar direto. Ah, minha filha, se a gente tivesse em Currema era bom demais. Tu tá é num ôindo em Sum Paulo. Era bom demais se tu tivesse muntada num jumento correndo pelos tabuleiro lá no Sítio Riacho da Catinga. Aqui é pior do que levar carreira de vaca dada cria de bezerro novo.
Mas toda agonia tem fim e depois de toda esta saga, chegamos ao local pertinente. Eu desci do ônibus e, quando fui me despedir de Zé Branco, percebi que não era necessário. Ele desceu atrás de mim e disse que não ia me deixar sozinha nem a golpe de cassete. Logo, Zé Branco ficou comigo por umas duas horas. Vale frisar que, como saímos de casa cedo, fomos os primeiros a chegar.

Após muita argumentação e já com o ambiente cheio de gente, eu consegui convencer Zé Branco a ir embora. Porém, sua natureza não lhe permitiu uma saída silenciosa... Assim, antes de correr para casa, ele gritou, mas dessa vez com a real intenção de gritar:
- Tome cuidado prima veia, aqui num é Currema não!

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Hespedito fala mais errado do que eu!


Acabo de me lembrar de uma pessoa que é um ícone da pureza original e um celeiro da "língua em uso" dos sertoes paraibanos. Para relatar suas peripécias linguísticas, a chamarei pelo pseudônimo de Dona Chiquinha, a mulher mais sabida que eu conheço. É como se ela estivesse na minha frente agora dizendo: Deixe de ser maluvida!!! Deixe de lundum!!! Eu sei là daquele cangueço!!! Bem, mas esta historia nao è para listar as pérolas desta lusofalante.
O que eu recordo fortemente agora é a historia relacionada ao nao uso dos artigos definidos antes dos substantivos próprios. Sem mais delongas, esclareço: Na Paraìba, como tambèm em outros estados nordestinos, nao se usa os artigos definidos antes dos nomes próprios. Por exemplo, nao se diz: o Severino, o Juvenal, o Vicente, mas, diz-se: Sever¡no, Juvenal, Vicente. Assim, a mulher sertaneja aqui em tela, sendo uma preciosidade da cultural local, desconhecia em plenitude o uso dos mencionados artigos lá pelas bandas de Sao Paulo. Por conseguinte, um dia, chega de Sao Paulo uma aderente sua, igualmente uma nativa das caatingas. Esta mulé, evidentemente chiando aqui e chiando acolá, afinal a dita cuja tinha passado por volta de uns três ou quarto meses em Sao Paulo, se "achegou" a dona Chiquinha e disse:
Dona Chiquinha: O Caio, meu menino, dar muito trabalho, o caio nao come, o caio nao estuda, o caio pra lá, o caio pra cá, assim foi a ladainha que imperou no decorrer de toda a prosa..... O Caio impressiou de todas as maneiras dona Tiquinha. Desculpem!!! Eu quis dizer dona Chiquinha.
Assim, chegando em casa, ela se endireitou no tamborete e começou a declamar a história e foi quando eu escutei ela dizer:
Rita da minha aima, pense num menino bonito o de minha parenta que chegou do sul, o menino è aivo que mais parece um santo desses de apregar na parede. E sabe como è o nome dele?
O nome dele è OCAIO.

E, sempre desembestando na gaitada, ela segue com seus comentários. E é debaixo do alpendre que Dona Chiquinha externa suas impressoes. Agora me lembro da história de Galega, uma das coroas da cidade que ela viu pulando carnaval em Coremas, história esta que antecedeu os comentários a respeito do seu primo Hespedito. Assim ela introduziu:


- Estamos no fim do mundo, eu vi uma coisa nesse carnaval que me deixou birmada, eu tô birmada até agora. Um escandêlo! Galega tava com o namorado pulando carnaval num rojão que ninguém pegava, o caritó dela tá com os dias contados. Ela tava vestida que só tu vendo.

- Eu, por minha vez, quis saber com que roupa estava a señorita Galega

Com o tom didático que ela nunca abandona, disse em sobressalto:

- Preste atenção, que vou lhe dizer como ela tava. Ela tava com essas roupas de hoje em dia, que eu não entendo direito. Era um calção desses de cota, curto e com uma brusinha encarnada e um corpete que agora vem com umas ta de alça de siliconha.

O bom è que, em suas ânsias por manifestar sua visao de mundo, ela corre de um assunto para o outro com a ligeireza do seu pensar. Assim, de imediato ela, do nada, desembestou numa gargalhada que espantou as janagaias que faziam ninho no telhado do alpendre. E, enquanto se entalava na achada de graça, ela se explicou:
- Eu tô aqui lembrando de Hespedito... (seu primo e o morador do sítio vizinho, responsável por mais da metade das gargalhadas de Dona Chiquinha). È que tu precisa ver como Hespedito fala errado, vixi Nossa Senhora do Perpé do Socorro!

- Tu acredita que Hespedito chama sala de culurgia de sala de fulusufia? E luquidificador, esses de fazer ponche, ele chama de contador, KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK.....