Esta é uma sofrida, mas inesquecível saga de estudantes paraibanos que saem de sua pequena cidade do interior para formar-se na capital. Concomitantemente, grande parte dos incidentes ocorridos nesta dramática história foi conseqüência do período eleitoral.
Eu e minha companheira de guerra “Marcela” estávamos em recesso universitário e, não contrariando a rotina, estávamos com os bolsos vazios. Assim, não tínhamos dinheiro para comprar as sonhadas passagens com destino à Coremas. Todavia, uma luz, uma bem-vinda luz, acendeu-se radiante no fim do túnel: Surgiu uma carona no ônibus “dos políticos”! Depois de articular a odisséia, rumamos ao Aeroclube, no Bairro Manaíra às dez da noite, hora em que estaria nos esperando o bendito ônibus dos políticos. Um bigú imperdível para duas estudantes destinadas!
Assim, chegamos ao local combinado, ansiosamente arrastadas pela vontade de chegar em casa. Aos poucos, os sertanejos, entre os quais, cinco estudantes despossuídos e um monte de sertanejos que veio à capital em busca de serviços não oferecidos nos hospitais do Sertão, foram lotando o Aeroclube. Por volta das onze horas da noite, só faltava chegar o ônibus. Assim, deu meia noite, uma da madrugada, duas, três e nem sinal do ônibus que deveria chegar as dez. No decorrer da maçante espera choveu e as ensopadas vítimas tentaram se proteger do aguaceiro debaixo da asa de um avião.
Nesse moído, por volta das cinco horas da manhã, uma lata velha e carcomida pela ferrugem, desaforadamente considerada um veículo automotor, conseguiu estacionar, numa aparência fantasmagórica, a cinco palmos do pau da venta dos sertanejos, os quais arregalaram os olhos, tamanha era a admiração provocada pela velhiçe do ônibus. Imediatamente, a comitiva sertaneja foi se acomodando nas enferrujadas e duras poltronas e, quando o danado do bicho acelerou, em sua zoada estrondosa, ouve toda sorte de oração, reza e promessas para que todos chegassem vivos aos seus destinos.
Foi pelas bandas de Campina Grande que os passageiros viveram os mais tenebrosos momentos de sua peregrinação. O “ônibus”, como se sofresse de uma bronquite crônica, começou a balançar-se e teve a proeza de piorar ainda mais a anormalidade do barulho. Não se sabia o que mais abatia Marcela e eu, se era a iminência de algum contratempo ou o estado deploravelmente faminto no qual jazíamos. Vale salientar que no meio desta aventura, tínhamos comido pela última vez (pão com café e leite) às sete horas da noite anterior. Contorcíamo-nos aos delírios pensando na galinha de capoeira, na buchada de bode, no rubacão, no tucunaré, na carne de criação e no arroz de leite que íamos comer se chegássemos em casa na condição de viventes.
Em meio ao ruído do ônibus e aos alaridos dos passageiros, alcançamos a afogueada cidade de Patos, por volta do meio dia. Os sertanejos foram bovinamente despejados no Comitê, desesperados de calor e fome. Os familiares do candidato pediram para esperarmos um pouco e avisaram que outro ônibus seria providenciado para deixar os amados eleitores em suas casas como mereciam. Contudo, as últimas frases do discurso conduziram a mim e a Marcela ao êxtase:
- Mas, primeiro, vocês vão almoçar numa churrascaria aqui, por nossa conta, não podemos permitir que nossos eleitores continuem a viagem morrendo de fome.
Depois de uma meia hora idêntica a uma eternidade, chegaram os táxis para conduzir todos até a paradisíaca churrascaria.
Possuídas pelo desespero da fome canina, pelo espírito desregrado e pela capacidade de rir das tragédias que Marcela e eu tínhamos por herança e por adaptação ao meio, submetemos o bom senso ao instinto animal. Ao entrar no táxi, vimos uns baldes ao nosso lado. E, debalde, tentamos nos controlar, pois, o fato è que abrimos discretamente e entre rinchadeiras estes baldes. E ficamos maravilhadas com a quantidade de goiabada contida dentro desses lindos recipientes e que iria paliar passageiramente o mal da fome. Assim, cravamos as imundas e suadas mãos dentro do doce e devoramos uma boa porção. O taxista, nesse momento, representava o universo que conspirou cruelmente contra nós e ao qual devíamos essa vingança.
Na churrascaria, mais uma pequena espera. Aproximadamente à uma hora da tarde, começamos a nos servir. O tempo escaldante e a fome há muito havia cegado os nossos olhos que, diga-se de passagem, já tinham saído de casa embaçados. Esculpimos um prato de rubacão com creme de leite, jabá, corredor de boi e costelas com gordura e tutano, resultando numa montanha que concorria com o Pico do Jabre.
Tentem imaginar: Arroz, feijão e carne, tudo bem gorduroso, ensebado e quente, numa cidade como Patos, uma hora da tarde e depois de ter passado uma noite em claro. O que posso dizer è o que lembro: Marcela e eu saímos dessa churrascaria só com o coração batendo.
Pouco tempo depois, chegou outro ônibus para seguir viagem. Tinha gente de Coremas, São João do Rio do Peixe e até do Ceará para este ônibus dar baixa. De barriga estourando, todos entraram no veículo quentíssimo e seguiram caminho. Foi a partir desse momento que, de fato, Marcela e eu despencamos numa correição de tragédias jamais vivenciadas. Antes de serem consumidas pelo suor frio e pelas respostas diarréicas dos nossos intestinos, caímos num sono profundo. O pai de Marcela nos pegaria em São Bentinho às três da tarde, conforme estava acertado. É isso mesmo, nos pegaria!
Horas depois, desgraçadamente avisadas pela iminente disenteria, reouvemos a condição de sobreviventes. A bem da verdade, Marcela e eu despertamos com todo o corpo atormentado, com o auto-domínio fisiológico chegando ao fim, ou melhor, (nunca fui amante dos eufemismos, meu negócio é com as hipérboles e pra que falar bonito?) despertamos, sim, segurando a mais desgraçada das caganeiras. Este infortúnio, embora visceralmente doloroso, não nos impediu de enxergar os demais infaustos, ou seja, o infeliz fato de que estava anoitecendo e que nos encontrávamos numa cidade irreconhecível e muito além das estradas que conduziam a Coremas. Com esperanças de tudo isso ser um delírio acarretado pela guerra gastro-intestinal, indagamos o motorista a respeito da hora e do local onde estávamos. Ele respondeu que eram quase seis da noite e que nos encontrávamos em São João do Rio do Peixe.
Os momentos imediatamente posteriores a essa revelação são inenarráveis e indescritíveis. Marcela e eu estávamos semi-cagadas, de pernas fechadas e testas suadas para não completar o serviço no meio da rua, certas de que tìnhamos que obrigar o motorista voltar e cientes de que Coremas estava borbulhando em fofocas e preocupações. Em estado de suplício, Marcela conseguiu revelar ao motorista que éramos de Coremas. Este, surpreso, depois sem conseguir compreender como foi que viemos parar em São João do Rio do Peixe e, por último, possesso, deu-nos um carão estrondoso. De cara lisa, apenas balbuciamos:
- Mas o Senhor vai nos deixar em Coremas, não vai?
O motorista nos fincou um olhar de ódio e descrença. Ele estava exausto e não cansava de bradar:
- Faz três dias que eu ando por estas rodagens e não vejo a hora de descansar, vocês tão querendo me matar! Ele tinha gente para deixar no Ceará e anunciou que só ia dar conta de nós duas quando retornasse. Logo, tínhamos que esperar o motorista em São João do Rio do Peixe.
Antes mesmo que o motorista entrasse no ônibus, Marcela e eu fomos a casa de nossa amiga Milvaneide para usar o banheiro. Terminada essa angústia, estávamos purificadas, pois a paga dos pecados foi feita em plenitude. Assim, fomos tratar das outras misérias.
Marcela, ao lembrar a viagem perdida que o pai dela realizou até São Bentinho e da preocupação que todos deviam está sentindo, puxou coragem das entranhas da alma e ligou para casa. Os clamores do motorista eram suaves cantigas de ninar diante das esculhambações, ameaças e lamúrias de desgosto que o pai, a mãe e o irmão de Marcela despejaram sem dar trégua. Irresponsável foi o adjetivo mais elegante que Marcela logrou e a mim restou a imagem satânica da má influência. Marcela desatou a chorar copiosamente, a explicar-se e defender-se aos soluços, num esforço admirável, embora inútil.
Algum tempo depois, veio o próximo baque: o motorista estava demorando e nos vimos diante de uma tragédia que ameaçava nossas vidas, qual seja, ficar em São João do Rio do Peixe sem dinheiro e sem raciocínio apurado o suficiente para pensar numa forma de chegar em Coremas.
Depois de termos a certeza de que não sofríamos de problemas cardíacos, o ônibus surgiu no horizonte com o solitário, afadigado e encolerizado motorista. Sem enxergar nada a não ser o caminho de casa, entramos no veículo e aguardamos caladas as broncas, exclamações, lições de moral, insultos e tudo o que fosse desse gênero.
Chegando à cidade de Cajazeiras, o motorista se voltou para Marcela e eu como quem se volta para dois asnos imprestáveis e trabalhosos e agregou:
- Esperem aí que eu vou tomar um banho e ver se crio coragem para deixar vocês, só vou se me aparece ânimo! Não resistindo ou não querendo perder a prática, ele acrescentou:
- Se não fosse a irresponsabilidade e a ruindade de vocês, eu ia dormir agora, ô inferno da taba lascada!
Ficamos lá com as fuças no chão e o rabo entre as pernas, esperando. Alguns minutos depois, duas senhoras, a par dos pormenores da tragédia na qual Marcela e eu triunfávamos sobre o derrotado motorista, vieram até nós duas e despejaram pragas em coro. No entanto, Marcela e eu estávamos tão cabisbaixas, tão caladas, sujas, exaustas e imersas num estado de indiferença que, repentinamente, houve uma profunda mudança no semblante das duas fofoqueiras. Subitamente, aquela revolta se transformou em dó. As senhoras escancararam um sorriso e convidaram Marcela e eu para comermos na festa de aniversário que estava acontecendo. Quando entramos na festa, ficamos atônitas em meio ao bolo, aos brigadeiros, salgados e refrigerantes. Devido ao panorama alimentar exibido debaixo de nossas pestanhas, o desarranjo intestinal de outrora se converteu em uma cinzenta lembrança em nossas amnésicas memórias. Assim, munidas de garfo, faca e colher, recomeçamos a peleja. Comemos até a exaustão e Marcela tanto devorava os brigadeiros quanto os enfiava nos bolsos da roupa.
Rindo da oscilação entre a desgraça e a glória em que se limitavam suas vidas, Marcela e eu entramos no ônibus preparadas para enfrentar o caminho e suportar os gritos, bramidos, berros, etc., etc., etc...
Ao arribar em busca de Coremas, o motorista ligou o som ouvimos Luiz Gonzaga, para matar as saudades de antanho. A viagem corria em paz quando, de repente, sentimos uma batida e uma freada bruscas. O ônibus se chocou com um jumento que estava no meio da estrada. E por culpa de algo ou de alguém, até um inocente bicho bruto faleceu em triste acidente.
Em um raio de segundos, o motorista pôs-se a urrar:
- A culpa desse acidente é de vocês, matei o companheiro de vocês, suas pestes! Marcela, não sei com que ousadia, teve a coragem de abrir a boca nesse momento e suplicar:
- O Senhor tem razão, a culpa é nossa, mas pelo amor de Deus, estamos com medo e podemos nos acidentar, vamos mais devagar. Mais uma vez, ouvimos toda aquela enxurrada de broncas...
Enfim, por volta das duas da madrugada, avistamos as primeiras casinhas do Cabo Branco, em Coremas. E foi exatamente no avistar destas casas que nossa saudosa emoção se foi ao perceber que o motorista estava nos deixando ali mesmo. Portanto, ainda andamos, cada uma com sua mochila nas costas, uns dois quilômetros e meio até chegar ao centro da cidade. Realizado este itinerário, nos separamos e fomos nos explicar as nossas respectivas famílias.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
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